• Andréa Jaeger Foresti

MOEDA FLOR: A Moeda da Participação Social

Andréa Jaeger Foresti

Noemi Estácio


Era janeiro de 2012. Tivemos a oportunidade de participar de um novo edital promovido pela Secretaria do Trabalho e do Desenvolvimento Social do Rio Grande do Sul (STDS). Em 2009 já havíamos participado dessa modalidade de edital com dois projetos aprovados em duas comunidades. Avaliamos que o trabalho desenvolvido apontou algumas questões não contempladas nos projetos anteriores e que mereceriam novos investimentos, oportunidade em que elaboramos projetos que contemplassem esses pontos, nas mesmas comunidades. Em uma delas o avanço estava fundamentado em uma Moeda Social, que foi chamado de Moeda Flor.


Utilizamos como referencial para a elaboração do projeto, o sociólogo Pedro Demo (1991), em especial na 3ª edição de seu livro “Avaliação Qualitativa”, em que o autor afirma que “a ciência prefere o tratamento quantitativo porque ele é mais apto aos aperfeiçoamentos formais: a quantidade pode ser testada, verificada, experimentada, mensurada.” (p.18) Nessa perspectiva quantitativa o autor ressalta que “acaba-se reconhecendo como real somente o que é mensurável e confunde-se o mais importante com o mais mensurável.” (p.18). Demo também faz referência à diferença entre a pobreza material e a pobreza que trata da falta de participação, que gera a falta de consciência dela mesma. O sociólogo afirma que uma das condições para superar uma determinada condição, é tomar consciência dessa condição. Com base nesses preceitos, nosso projeto se propôs, com a metodologia da Moeda Flor, abarcar a perspectiva da demanda material expressa em alguns utensílios domésticos que ajudariam as integrantes em seus cotidianos, aliada à perspectiva participativa, que se evidenciava no comparecimento aos encontros, no compromisso de horários, na troca de saberes, no incentivo à frequência em reuniões de conselhos comunitários, que atribuiria vitalidade à comunidade.

A Moeda Flor se configurou como uma metodologia relevante para estimular o hábito da participação social a partir do subsídio a bens que se configuravam como demandas domésticas das participantes do grupo. A quantidade de moedas que cada integrante reunia ao longo dos encontros realizados a cada dois meses de projeto era trocada por utensílios domésticos, precificados em moeda social.

Conforme Demo, no livro “Participação é conquista” 1988,


“... entendemos como autopromoção a característica de uma política social centrada nos próprios interessados, que passam a autogerir, ou pelo menos, co-gerir a satisfação de suas necessidades, com vistas a superar a situação assistencialista de carência de ajuda”. (pág.67).

Essas demandas domésticas originadas nas condições sociais dos moradores daquela comunidade, e remediadas historicamente por doações de materiais, muitas vezes acabavam gerando mais sentimento de pobreza do que suprindo as reais necessidades. Isso porque lá chegavam eletrodomésticos que não funcionavam, sapatos de um pé só, cobertores furados, entre outros itens usados que, sim, proviam o necessário. Essas doações foram interpretadas pela equipe técnica como algo que gerava um sentimento negativo que precisava ser ressignificado, a partir de objetos novos, adquiridos e conquistados pela comunidade, a partir de um processo participativo.


A efetividade da metodologia fundamentada na Moeda Flor se justificou nas duas formas de “remuneração” dos integrantes do projeto, na medida em que estimulou a organização do espaço, valorizou a assiduidade e a pontualidade dos participantes do projeto. Foram criadas duas formas de participação do grupo: a primeira se configurou como participação ativa, por parte daqueles integrantes que cooperavam com a organização dos encontros na limpeza, no preparo do lanche coletivo, na compra de materiais para a produção das Joias Sustentáveis e nos cuidados com as crianças que acompanhavam suas mães e/ou responsáveis, recebendo MF$ 2,00 em cada momento do encontro; e a segunda forma, identificada como participação passiva, por parte daqueles integrantes que não contribuíam com a organização do encontro, mas podiam optar pela participação ativa a qualquer momento do projeto. Os participantes passivos recebiam MF$ 1,00 em cada momento do encontro. Os critérios foram criados de forma participativa e incluiu a tolerância de quinze minutos de atraso na chegada e quinze minutos para antecipação na saída, como forma de gerar assiduidade e pontualidade do grupo.


As trocas entre moedas e utensílios domésticos se davam em um evento denominado Mercado Flor. Um encontro em que as integrantes do projeto estabeleciam a troca das Moedas Flor que adquiriram a partir da participação nos encontros semanais até então realizados.


Na ocasião de avaliarmos o processo a partir de palavras impressas em tarjetas, a serem escolhidas pelas participantes, o grupo manifestou depoimentos que indicavam efetividade dos nossos objetivos. Alguns deles foram:

- “Ter condições de trocar minhas moedas por um cobertor que nunca foi usado é muito bom. A minha palavra é ‘dignidade’.”(sic)

- “Eu me senti valorizada porque foi a primeira vez que eu levei coisa boa pra dentro da minha casa. Sempre foi o meu marido que trabalhou e comprou tudo pra nós.” (sic) A palavra escolhida foi ‘valorização’.

- “Quando meu filho chegou e viu um liquidificador em cima da prateleira da cozinha logo perguntou quem tinha dado, e eu fiquei muito feliz em dizer que tinha sido eu que consegui com o projeto da Moeda Flor.” (sic) A palavra que representou essa integrante do grupo foi ‘conquista’.


“Somente pode ser científico o que for discutível: esta é a regra da comunicação humana, que só é autêntica se vai e vem, sem peias, sem condições, sem pressões. Assim, qualquer depoimento vale pela honestidade do depoente, que pode ser testada por quem quer que seja.” (DEMO, 1991; p. 36)


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