• Andréa Jaeger Foresti

Ensinar comunidades a elaborar projetos é como ensinar a fazer feijão


ELABORAR PROJETOS & RECEITA DE FEIJÃO

Andréa Jaeger Foresti

Estávamos atuando em uma comunidade que mostrou interesse em saber como nós, assistentes sociais, elaboramos projetos. Aprendemos em nossa formação com Myriam Veras Baptista, que o “Planejamento Social” parte da construção e reconstrução do objeto da intervenção profissional. Assim como a realidade social, o objeto de intervenção é dinâmico e, no âmbito de sua contínua reconstrução, ele vai se delimitando de acordo com os limites e possibilidades que se apresentam. Em síntese, Baptista (2002) nos mostra a importância de fazer continuamente novas perguntas e suscitar novas possibilidades para determinadas demandas.


A forma pedagógica que encontramos de especificar o caminho percorrido na construção de qualquer projeto foi o de se fazer perguntas norteadoras. Quando soubermos as respostas para “o quê?, por quê?, como?, quando?, quem?, onde? e quanto?” teremos a estrutura central de um projeto. Para sermos mais específicas e efetivas no aprendizado do grupo, fizemos uma analogia com alguma experiência do cotidiano das mulheres que faziam parte daquele projeto. Todas sabiam fazer feijão. E foi dessa forma que criamos uma relação entre a elaboração do projeto que visava à organização e participação social daquela comunidade, com uma receita de feijão.


Partimos para as perguntas e as mulheres apresentavam as respostas que, então, nós, assistentes sociais, relacionávamos ao roteiro de nosso projeto: para a primeira pergunta, (i) “O QUÊ?”, a comunidade tinha como resposta, a “RECEITA DE FEIJÃO”. E nós, técnicas, informamos que no projeto, essa pergunta se refere ao item "IDENTIFICAÇÃO", cujo conteúdo tem conformidade com a “ORGANIZAÇÃO E PARTICIPAÇÃO SOCIAL DA COMUNIDADE EM QUESTÃO”.


Na sequência, à pergunta (ii) “POR QUÊ?”, a comunidade respondeu que o feijão tem a função de “ALIMENTAR”. Nós, assistentes sociais, explicamos que essa pergunta está relacionada ao item “OBJETIVOS DO PROJETO”, que no caso desse projeto, os objetivos se apresentam como forma de “DESENVOLVER HABILIDADES DE FORMA COLETIVA, SUPRIR NECESSIDADES DOMÉSTICAS COM UTENSÍLIOS PARA COZINHA E GERAR COMPLEMENTO DE RENDA”.


O (iii) “COMO?” para as participantes do grupo que sabiam a receita do feijão, se constituiu em “SEPARAR OS INGREDIENTES, PANELA, FOGÃO, GÁS, DEIXAR FEIJÃO DE MOLHO E COZINHAR”. Para as assistentes sociais que desenharam o projeto, o “COMO” se configurava como “METODOLOGIA”, sendo essa, constituída das seguintes ações: “ATRAVÉS DE UM ENCONTRO SEMANAL, DIVIDIDO EM MOMENTOS DE CAPACITAÇÃO E DE PRODUÇÃO, A PARTICIPAÇÃO GERA ACÚMULO DE MOEDAS SOCIAIS PARA OS PARTICIPANTES QUE SEGUIREM OS CRITÉRIOS DEFINIDOS COLETIVAMENTE.” Os critérios para receber as moedas sociais estavam relacionados à assiduidade e pontualidade, como forma educativa de definir um comportamento mais justo entre os integrantes daquele coletivo.


A pergunta (iv) “QUANDO?” estava associada aos “HORÁRIOS DE REFEIÇÃO” e fazia referência ao “CRONOGRAMA”, tendo a “DATA DE INÍCIO DAS ATIVIDADES EM 6/6/2012 A 19/12/2012, DIRECIONADAS PARA INTEGRANTES DA ASSOCIAÇÃO COMUNITÁRIA E 4/7/2012 A 19/12/2012, PARA MORADORES DA COMUNIDADE QUE ESTIVESSEM INSERIDOS EM PROGRAMAS SOCIAIS”, de forma que na primeira fase as participantes se capacitariam para serem multiplicadoras das ações desenvolvidas na segunda fase.


A questão (v) “QUEM?”, para a comunidade, se referiu às pessoas que cozinham feijão, ou seja, às “DONAS DE CASA” e, para as assistentes sociais, a questão está relacionada ao item “RECURSOS HUMANOS”, referidos em três categorias: os “TÉCNICOS, CINCO INTEGRANTES DA ASSOCIAÇÃO COMUNITÁRIA E ATÉ VINTE MORADORES DAQUELA COMUNIDADE QUE ESTIVESSEM INSERIDOS EM PROGRAMAS SOCIAIS”. Os técnicos, na função de coordenação geral do projeto. Os integrantes da Associação Comunitária tinham como atribuição, organizar os encontros (compra e preparo de lanches com recursos do projeto; limpeza; e preparo dos kits de produção de Joias Sustentáveis). E os moradores inseridos em programas sociais, que participavam da segunda fase do projeto, liderados pelos integrantes da associação comunitária na produção das Joias Sustentáveis e capacitados pelas assistentes sociais na formação teórico-metodológica.


Sobre a pergunta (vi) “ONDE?”, o grupo respondeu que o feijão era feito “NA COZINHA” ao passo que as técnicas relacionaram a questão ao item “LOCALIZAÇÃO”, que se referia aos “ENCONTROS NA ASSOCIAÇÃO COMUNITÁRIA”.

Para concluir, a pergunta (vii) “QUANTO?” é a que define, em realidade, o primeiro passo para a receita ser realizada, que se refere ao “PREÇO DO FEIJÃO, DOS INGREDIENTES E DOS INSTRUMENTOS NECESSÁRIOS PARA A RECEITA DE FEIJÃO SER REALIZADA”. No que diz respeito ao projeto, o item associado é o do “ORÇAMENTO”. É neste item que são descritos e calculados todos os custos envolvidos com a execução, como: deslocamentos, lanches, utensílios para serem trocados por moedas sociais, impressões, etc.


Esta “receita” de elaborar projetos foi utilizada em diferentes momentos em que a equipe técnica identificava demandas locais, que se manifestavam como algo que requer a reconstrução do objeto de intervenção profissional como parte de seu respectivo planejamento social. Muitas foram as situações em que as etapas do projeto foram evidenciadas pela equipe técnica, e comparadas com a receita de feijão, para que as integrantes compreendessem a condução da metodologia.



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